terça-feira, 5 de julho de 2011

Minas Gerais: Uma Nação Imaginada?

Lê-se na Constituição Estadual mineira:

Art. 2º – São objetivos prioritários do Estado:

(...)


X – garantir a unidade e a integridade de seu território (...) .

Essa é uma preocupação não expressa na Constituição do Estado do Rio de Janeiro, ou que é expressa de maneira muito rápida na Constituição do Estado de São Paulo.

Há algum fiz um comentário sobre a construção da mineiridade, tema que acho bastante interessante, e que tem a ver com essa preocupação expressa na Constituição do Estado de Minas Gerais. Ele é transcrito, de maneira adaptada, abaixo.

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Gostaria de partir de um "porto seguro": como diz Benedict Anderson, nações são comunidades imaginadas. Assim, mesmo que uma noção de nação (poderíamos falar de uma nação mineira?) surja acidentalmente, ou melhor, de forma não planejada, não poderíamos prescindir de classificá-la como fenômeno ideológico, ainda que de uma "ideologia" interna (a tal imaginação).

Atualmente comentamos que o Brasil é um país alegre, de povo feliz. Interessante notar que durante boa parte do século XIX e mesmo do XX (pensemos em Urupês e no Jeca Tatu de Monteiro Lobato) a discussão foi a respeito do motivo do povo brasileiro ser um povo triste. Então em algum momento tivemos essa virada, de povo triste para povo feliz. Então temos que a noção de um povo não é coisa estanque, é algo dinâmico, que só é válido na medida em que essa noção é aceita (lembremo-nos dos iugoslavos).

Voltando em Anderson, a noção de nação muitas vezes está associada a uma questão político-administrativa - uma nação pode emergir a partir do momento em que uma estrutura oficial determina que um certo espaço existe como estrutura separada (pensemos no Iraque). Imagino que seja isso que tenha ocorrido em Minas Gerais.

Pelo pouco que sei, a noção de "mineiros" como povo surge com o surgimento de Minas Gerais como entidade oficial. Talvez teríamos aí que a mineiridade está vinculada principalmente a estar subordinada a uma entidade oficial comum. Difícil pensar o que mineiros, digamos, de Teófilo Otoni, Três Pontas e Governador Valadares, têm de comum e intrínseco entre si, além da noção de mineiridade e de um governo comum.

Assim, a noção de mineiridade parece ser oriunda principalmente da experiência de uma subordinação política comum, que dá origem a uma consciência compartilhada. Mais recentemente, com o desenvolvimento dos meios de transportes e comunicações, e o surgimento de economia de mercado "de massas", talvez a experiência de uma influência econômica comum (um estudo interessantíssimo a respeito é o Região de Influência das Cidades - REGIC), centrada em cidades típicamente "mineiras" (o principal exemplo é Belo Horizonte) também seja subsidiária a essa linha de pensamento.

Num ponto um pouco mais polêmico, é interessante pensar que cidades e regiões com uma maior vocação independentista, como a região do Triângulo e da Zona da Mata, têm um relacionamento menor com Belo Horizonte (que talvez nunca tenha conseguido polarizar de forma única todas as regiões do estado). Poderíamos, talvez, ter então um elo no sentido menor polarização pela capital política e econômica -> maior vocação independentista, de forma coerente com a visão de que a identidade política e administrativa é importante na formação da identidade da "nação mineira".

Assim, acho que a mineiridade nasce de um "parto oficial", a partir do momento em que Minas Gerais nasce como entidade político-administrativa. O que vem a ser essa mineiridade, porém, é fruto de um certo discurso, tanto cultural, quanto político, quanto econômico, etc., e que não pode ser definido a priori, nem é constante no tempo.

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